“Em Família” Erra Informação Médica

Imagem: HumorTadela

O comentário é geral: a nova novela de Manoel Carlos está morna, “para boi dormir”, diriam os experts. Mas como não tem nada que preste na telinha, os brasileiros seguem a boiada. Não conseguem mexer os dedos para teclar outros canais no controle remoto.

Dizem as más línguas que outra TV reuniu uma série de mulheres para mostrar uma programação inovadora. Claro, sem que soubessem qual era a TV em questão. Todas ficaram maravilhadas: histórias interessantes, apresentadores idem. Só tinha um problema: diziam que não era Globo. Queriam a certeza de que estariam na Vênus Platinada.

Então, se a manada de brasileiros não consegue se desvincular do produto mais rentoso da TV do Rio de Janeiro, o negócio é relaxar e analisar as novelas plim-plim. Principalmente, as das 21hs, “Em Família”. E, de tantas pérolas que só Deus duvida na história, uma cena passada dia desses provocou frouxos de riso na classe médica.

A médica assediada por um colega bebum soltou uma tirada fora da realidade. Disse para a secretária que estava morta de cansada, pois tinha feito quinze procedimentos, provavelmente consultas e alguns procedimentos dentro do consultório.

Fiquei perguntando para mim mesmo: “que raios de procedimentos? Consultas? Exames complementares?”. Como médico atuante tanto na área pública como na particular e em consultório médico particular, tenho autoridade para abordar o assunto.

Na área pública, somos obrigados a atender em cinco horas de trabalho em torno de vinte pacientes. Só que atendemos o dobro. Quando não, mais de quarenta pacientes. E, no meu caso, em torno de cinquenta pacientes. Um exagero, é verdade, mas é a nossa realidade, meus amigos.

Não há tantos neurologistas disponíveis nas cidades em torno de São Paulo. Há dias que saio desses serviços extasiado, morto de cansado mesmo, com vontade de cair numa cama e dormir durante anos. Mas, no dia seguinte, a mesma rotina.

Então, ouvir da doutora na ficção que estava cansada por ter feito quinze procedimentos soou como gozação. Desconhecimento pesado da realidade médica por parte do autor.

A conclusão, como jornalista científico e médico atuante, é que esse tipo de informação num produto de lazer da maioria da população brasileira leva a equívocos enormes. O povo pode pensar que os médicos vivem num clima de glamour, o que não é a realidade. Vivemos de pressão por todos os lados:  de falta de infraestrutura e de medicamentos e de pacientes querendo atendimentos de todos os lados. Inclusive, fora de nossa cidade, mas que atendemos com o maior prazer.

Mesmo que não sejam contabilizados quinze procedimentos no final do plantão.

0 0 427 05 maio, 2014 Crônica, Diversos, Saúde, Slide maio 5, 2014

Sobre o autor

Dr. Stélio Leal Pessanha é médico com formação em Neurologia e Neurocirurgia e atua em consultório desde que se formou. É chefe de neurologia e neurocirurgia das cidades de Caieiras e Francisco Morato, pós-graduado em Neurologia, eletroencefalografia, eletroneuromiografia, Oto–neurologia, potencial evocado auditivo, visual e somatosensitivo. Desenvolveu e desenvolve atividades em: - clínica médica: Saúde Pública, Administração Hospitalar, Patologia Clínica, Medicina do Trabalho, Medicina do Tráfego, Didática do Ensino Superior - em comunicação: USP (Português, Inglês), Uninove (Jornalismo-Publicidade). Roteirista de rádio, teatro e TV É escritor: - “O Mestre Aprendiz de Medicina”, livro já editado que mostra a trajetória de um médico no dia a dia com pacientes no consultório, prontos-socorros e centros cirúrgicos (acesse https://www.youtube.com/watch?v=Gc0F4Z6DtUs para mais informações) - “O destino Cuspiu para o Alto”, em fase de execução, livro a respeito de membros de algumas famílias que tinham tudo para dar certo, mas trilharam o caminho do mal. Como cidadão, a rebeldia de um então jovem médico recém-formado o levou a fundar um jornal (Gazeta Regional de Caieiras e região), uma rádio (Onda FM 87.5), webTV (TV Nova Onda e está a caminho de abrir sua TV retransmissora, todos sob a égide da Associação de Mídia Comunitária, a AMIC). Todas as mídias objetivam defesa da democracia, do meio ambiente e dos direitos do que mais precisam.

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