Vida de Médico é Diferente

Muitos vão achar essa crônica um show de desculpas para, no fim, justificar minha vida pouco social. Ou para dizer que sou um verdadeiro ermitão, que cultivo a solidão, o silêncio da minha casa, só interrompido por meus gatos miando para abrir ou fechar a porta. No entanto, os céticos não entendem o roteiro pesado de um aspirante a médico. São seis anos na faculdade de Medicina, sofre todo tipo bulliyng educacional nesse período, a começar pela destruição de todos os paradigmas da educação dada pelos nossos pais.

A seguir, o aspirante sofre a maior lavagem cerebral no que tange a ensinamentos religiosos. Adão e Eva, mordida na maça… tudo isso passa a segundo plano de ato de fé, em contraposição aos conceitos da ciência baseados em evidências. E passa a denominar leigos os de fora do meio.

A nossa vida se reduz a livros e à luta para desvendar os segredos do corpo humano. Controlar sua bioquímica, seu funcionamento e as referências para podermos passar à parte que interessa mais: reconhecer as patologias. No começo, a maioria delas; mas depois, entendemos que o básico é o início de tudo.

Descobrimos que os professores são meros apêndices de nossa participação no estudo da Medicina. Na maior parte do tempo, mostram-se arredios. E quando questionamos qualquer coisa, nos mandam para a biblioteca. Sentimo-nos como lixo. Não entendemos isso. Sofremos calados por respeito a hierarquia.

Não podemos relatar isso a ninguém. A imagem da aura em volta dos médicos não pode ser destruída ou  revelada. Resta apenas, no início do ano, mostrar poder, fazendo os novos calouros sentir na carne o que os espera.

No fim, fazemos festas na formatura para os pais. Afinal, gastaram uma fortuna para ver o filho doutor. Mas quem pensa que acabou, se engana. Ainda resta o martírio da residência e o esquema de comer o pão que o diabo amassou continua. O R1, nome dado ao residente no primeiro ano de vida, sofre na mão do R2. Daí por diante.

Alguém ouviu falar de vida social? Não. Só estudo depois de estudo. Namorar, só de vez em quando. Aos trancos e barrancos, surge um filho e o casamento com a mulher amada. Na mesma proporção, podemos falar de um negócio chamado tempo. E sem aquele papo de quem sabe faz o tempo render. É só papo para vender livros. Não sobra tempo para nada.

Minto, quando sobra, é para ficar com filhos e a mulher. Para o próprio médico, a briga é grande. Então, o que falei até agora quer dizer uma coisa: tempo e vida para o médico são diferentes. Não julguem quando o médico surta e diz que vai para casa ou não vai àquela festa, principalmente no domingo, porque é esse momento que tem para descansar.

E que se danem aqueles que acham ignorância ou falta de educação. Vida do médico é diferente.

1 0 3095 23 janeiro, 2014 Crônica, Saúde, Slide janeiro 23, 2014

Sobre o autor

Dr. Stélio Leal Pessanha é médico com formação em Neurologia e Neurocirurgia e atua em consultório desde que se formou. É chefe de neurologia e neurocirurgia das cidades de Caieiras e Francisco Morato, pós-graduado em Neurologia, eletroencefalografia, eletroneuromiografia, Oto–neurologia, potencial evocado auditivo, visual e somatosensitivo. Desenvolveu e desenvolve atividades em: - clínica médica: Saúde Pública, Administração Hospitalar, Patologia Clínica, Medicina do Trabalho, Medicina do Tráfego, Didática do Ensino Superior - em comunicação: USP (Português, Inglês), Uninove (Jornalismo-Publicidade). Roteirista de rádio, teatro e TV É escritor: - “O Mestre Aprendiz de Medicina”, livro já editado que mostra a trajetória de um médico no dia a dia com pacientes no consultório, prontos-socorros e centros cirúrgicos (acesse https://www.youtube.com/watch?v=Gc0F4Z6DtUs para mais informações) - “O destino Cuspiu para o Alto”, em fase de execução, livro a respeito de membros de algumas famílias que tinham tudo para dar certo, mas trilharam o caminho do mal. Como cidadão, a rebeldia de um então jovem médico recém-formado o levou a fundar um jornal (Gazeta Regional de Caieiras e região), uma rádio (Onda FM 87.5), webTV (TV Nova Onda e está a caminho de abrir sua TV retransmissora, todos sob a égide da Associação de Mídia Comunitária, a AMIC). Todas as mídias objetivam defesa da democracia, do meio ambiente e dos direitos do que mais precisam.

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