EM ALGUM LUGAR DO PASSADO

jornalista Stélio L. Pessanha

jornalista Stélio L. Pessanha

Chovia muito lá fora para um sábado à tarde. Entre trovões e relâmpagos, minha mãe dizia que era chuva de verão. E logo isso iria passar. Lá fora, só se avistava um casal de cavalos amarrados a uma árvore tentando se proteger da chuva. Abraçado a ela, queixava-me de que aquilo não era lugar para mim. Queria morar na cidade grande. E não na Baixada da Égua como a região ficara conhecida.

Do alto de sua sabedoria e entendendo minhas aspirações, a mulher mais importante da minha vida profetizou: “Você não vai ficar muito tempo aqui. Do jeito que estuda, só São Paulo e o mundo será o limite”. E isso se concretizou. Com 19 anos, desembarquei na terra da garoa, cantada em versos e prosas de Adoniran Barbosa.

minha “Maria” achava que a cidade mais importante do país tinha toda a infraestrutura necessária para abarcar toda minha vontade de aprender e me desenvolver. São Paulo, a cidade da esperança daqueles que vinham com toda a esperança do mundo. A metrópole dos migrantes. Do Nordeste e de todo o País.

São Paulo parecia para mim um colosso de esperanças. E nunca me decepcionou. Cobra um preço altíssimo para se chegar lá. Muitos jovens fizeram besteiras. Foram para o mundo das drogas. Não aguentaram a pressão de trabalhar de dia e, à noite, correr para a escola para terminar o colegial. Depois, tentar o terrível dragão do vestibular. Muita gente me tachou de louco. Acho que ainda me acham fora da realidade.

Os que desistiam não sabiam o que era viver na Pauliceia Desvairada. Não sabia da necessidade da gana. De se cercar de fé, luta e trabalho. Muito trabalho. De saber que quedas e mais quedas poderiam ocorrer. Mas, jamais esquecer as metas. E chegar lá. Fazer a faculdade de Medicina tão sonhada.

A responsável por isso, a “Minha Maria”, conseguiu me ver formado. Mas não está mais conosco. Uma pena! Poderia ver o fruto de sua carne transportada em sua neta, uma médica com o mesmo estirpe e formação do pai. Mais ainda: veria também que a semente plantada em São Paulo não foi em vão.

Além da neta, o trabalho para diminuir o sofrimento daqueles que estiveram no mesmo lugar da gente nunca foi parado. Por meio de esforço pessoal e de muita gente, temos conseguido reduzir filas no SUS. Melhorar a qualidade do atendimento. Evitado que idosos fiquem horas esperando para pegar receitas de medicamentos do estado.

Mesmo assim, os obstáculos continuam a emperrar o desejo de ver um SUS de qualidade. Uma mistura de falta de interesse político associado à incompetência dos gestores provocam muito desânimo. Às vezes, a vontade é largar tudo e ir embora. Muitos gostariam que eu tomasse essa atitude; mas, então, lembro as palavras de uma música do Chico Buarque: “Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu […]. A gente quer ter voz ativa” – (Eu quero mandar os políticos para aquele lugar), “no nosso destino mandar. Mas eis que chega a roda viva e carrega o destino pra lá”. Deve ser mais ou menos isso. Mas, como a música, eu continuo, mãe.

0 0 486 16 setembro, 2013 Crônica, Saúde, Slide setembro 16, 2013

Sobre o autor

Dr. Stélio Leal Pessanha é médico com formação em Neurologia e Neurocirurgia e atua em consultório desde que se formou. É chefe de neurologia e neurocirurgia das cidades de Caieiras e Francisco Morato, pós-graduado em Neurologia, eletroencefalografia, eletroneuromiografia, Oto–neurologia, potencial evocado auditivo, visual e somatosensitivo. Desenvolveu e desenvolve atividades em: - clínica médica: Saúde Pública, Administração Hospitalar, Patologia Clínica, Medicina do Trabalho, Medicina do Tráfego, Didática do Ensino Superior - em comunicação: USP (Português, Inglês), Uninove (Jornalismo-Publicidade). Roteirista de rádio, teatro e TV É escritor: - “O Mestre Aprendiz de Medicina”, livro já editado que mostra a trajetória de um médico no dia a dia com pacientes no consultório, prontos-socorros e centros cirúrgicos (acesse https://www.youtube.com/watch?v=Gc0F4Z6DtUs para mais informações) - “O destino Cuspiu para o Alto”, em fase de execução, livro a respeito de membros de algumas famílias que tinham tudo para dar certo, mas trilharam o caminho do mal. Como cidadão, a rebeldia de um então jovem médico recém-formado o levou a fundar um jornal (Gazeta Regional de Caieiras e região), uma rádio (Onda FM 87.5), webTV (TV Nova Onda e está a caminho de abrir sua TV retransmissora, todos sob a égide da Associação de Mídia Comunitária, a AMIC). Todas as mídias objetivam defesa da democracia, do meio ambiente e dos direitos do que mais precisam.

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