Tóquio 2020

Por Daniel Takata

Japonês adora uma regra. Isso é o que não falta no Japão. Lá, tem regra para tudo. O que mais se vê são placas e avisos com o que pode e o que não pode. E elas são totalmente obedecidas. Muito dificilmente você verá um japonês atravessando a rua fora da faixa de pedestres ou com o sinal para pedestres no vermelho, mesmo que não haja sinal de carros na rua.

O curioso é que em nenhum dos aviso há qualquer menção a algum tipo de multa ou punição. Em geral, os japoneses sequer sabem se existe. Há um pensamento geral de que se existe uma regra, deve haver uma razão para ela existir, e ela deve ser obedecida. Então para que se preocupar em divulgar multas e punições, se todos vão obedecer?

E este é o ponto. A aceitação geral das regras está relacionada com colocar o conforto de todos acima do conforto individual. É uma sociedade em que o bem comum é mais importante. Tudo funciona na mais perfeita harmonia. Não existe qualquer indício do jeitinho brasileiro. No trânsito, o ruído mais difícil de se ouvir é o de uma buzina. Já pude comprovar que os trens lá são mais pontuais que na Inglaterra ou na Suíça. As regras são feitas para o bem-estar geral e – o mais importante -: o japonês entende isso.

Não é de se espantar, portanto, a força da candidatura de Tóquio para sede da Olimpíada de 2020. A mais estruturada, a mais técnica, a mais eficiente dentre as três concorrentes (as outras eram Istambul na Turquia e Madri na Espanha). Não foi surpresa, portanto, a vitória japonesa.

Tóquio já tem grande parte da estrutura. Basicamente 80% do necessário estão prontos, entre infraestrutura, rede hoteleira e locais para competição, aproveitando inclusive o legado dos Jogos de 1964, que também foram realizados lá. O resto, eles têm quase sete anos para providenciar. O que não deverá ser difícil.

O Estádio Olímpico (que passará por reforma) e o ginásio Nippon Budokan, sede das provas de judô em 1964, entre outras estruturas, serão utilizados novamente. Não há, portanto, necessidade de construção de vários locais de competição. Além disso, a Olimpíada de 2020 será a mais compacta da história, com 28 dos 33 locais de competição localizados a no máximo 08 quilômetros da Vila Olímpica.

Na realidade, em 2009, Tóquio foi finalista no processo de candidatura para a sede dos Jogos de 2016, junto com Rio de Janeiro, Madri e Chicago. Também era considerada a melhor tecnicamente. Mas na época prevaleceu a política, com inclusive Lula e Barack Obama tendo papéis centrais no processo de seleção. O Rio de Janeiro venceu e o Japão teve que esperar mais quatro anos. Já havia esperado outros tantos, pois as candidaturas para as Olimpíadas de 1988, com Nagoya, e de 2008, com Osaka, também haviam sido mal-sucedidas. Desta vez, levou com méritos. Talvez merecesse ter vencido há quatro anos, mas há muito mais em jogo do que somente demonstrar ser uma boa sede.

Recentemente, a preparação do Rio de Janeiro para a Olimpíada de 2016 sofreu duras críticas do COI e mais duras ainda do ex-nadador Alexander Popov, membro do comitê de avaliação. A três anos dos Jogos, os problemas são visíveis.

Tóquio dificilmente passará por isso. O transporte é fora de série e pode-se ir a todo lugar de metrô. É uma das cidades mais seguras do mundo, apesar de ser uma metrópole. Não há nenhum perigo em andar de madrugada nas ruas. A cidade é preparada para receber turistas e não há dificuldade para chegar aonde se deseja – os ideogramas japoneses assustam, mas há pontos de informações em todos os lugares.

Por esses aspectos de infraestrutura já presentes em Tóquio e tão precários no Rio de Janeiro é que a candidatura japonesa apresentou um orçamento de 7,8 bilhões de dólares, um pouco mais da metade do valor apresentado pela cidade brasileira – 14,4 bilhões. O dinheiro será gasto apenas com uma parte das instalações esportivas, pois o restante já está pronto, e com a Vila Olímpica. Certamente o COI não terá dor de cabeça, como vem tendo com o Rio e como também teve com Atenas, na Grécia, em 2004. Afinal, no Japão não existe o jeitinho.

E, além de tudo, os japoneses são apaixonados por esporte. Quem já assistiu às transmissões esportivas, em especial de natação, da TV Asahi deve concordar com isso. Eles não admiram somente atletas japoneses, como também os ídolos internacionais – a reverência a Ian Thorpe por lá no início da década passada chegou a ser descomunal. Ou seja, as grandes estrelas do esporte se sentirão em casa.

Os Jogos do Rio em 2016 são de certa forma uma incógnita. Mas, faltando sete anos, já é possível ter certeza de que Tóquio será muito bem-sucedida na organização da Olimpíada. O espírito japonês é de que o bem-estar coletivo é mais importante que o bem-estar individual.

E, afinal, o que pode ter mais a ver com o espírito olímpico?

0 0 657 16 setembro, 2013 Esporte, Natação, Slide setembro 16, 2013

Sobre o autor

Dr. Stélio Leal Pessanha é médico com formação em Neurologia e Neurocirurgia e atua em consultório desde que se formou. É chefe de neurologia e neurocirurgia das cidades de Caieiras e Francisco Morato, pós-graduado em Neurologia, eletroencefalografia, eletroneuromiografia, Oto–neurologia, potencial evocado auditivo, visual e somatosensitivo. Desenvolveu e desenvolve atividades em: - clínica médica: Saúde Pública, Administração Hospitalar, Patologia Clínica, Medicina do Trabalho, Medicina do Tráfego, Didática do Ensino Superior - em comunicação: USP (Português, Inglês), Uninove (Jornalismo-Publicidade). Roteirista de rádio, teatro e TV É escritor: - “O Mestre Aprendiz de Medicina”, livro já editado que mostra a trajetória de um médico no dia a dia com pacientes no consultório, prontos-socorros e centros cirúrgicos (acesse https://www.youtube.com/watch?v=Gc0F4Z6DtUs para mais informações) - “O destino Cuspiu para o Alto”, em fase de execução, livro a respeito de membros de algumas famílias que tinham tudo para dar certo, mas trilharam o caminho do mal. Como cidadão, a rebeldia de um então jovem médico recém-formado o levou a fundar um jornal (Gazeta Regional de Caieiras e região), uma rádio (Onda FM 87.5), webTV (TV Nova Onda e está a caminho de abrir sua TV retransmissora, todos sob a égide da Associação de Mídia Comunitária, a AMIC). Todas as mídias objetivam defesa da democracia, do meio ambiente e dos direitos do que mais precisam.

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